Teresa Ferreira Marques é advogada de dia e blogger de noite. Aqui vai escrever de vez em quando sobre beleza (esta é a primeira crónica de muitas, esperamos), mas, tanto quanto sei, o seu sonho é ganhar a vida a escrever sobre música. Tem 29 anos e apesar de ser lisboeta de gema usa o pseudónimo de Maria Minhota no The Evil Twin.
O seu produto de beleza must-have é o sérum para cabelos encaracolados do John Frieda, e já vão perceber porquê.
“Those curious locks so aptly twin’d, Whose every hair a soul doth bind”, Thomas Carew.
Costuma dizer-se que o cabelo é a moldura da cara. Neste momento tenho tão pouco cabelo (quantidade, não comprimento) que tenho uma moldura minimalista, daquelas fininhas que mal se vêem. Mas em tempos tive uma moldura rococó, daquelas largas e trabalhadas de talha dourada que costumam enquadrar óleos épicos do séc. XIX com cenas de batalha e querubins.
Quando era miúda tinha canudos perfeitos e loirinhos, dignos de uma boneca de loiça de início de século. A brincadeira preferida dos meus primos era agarrarem-me os caracóis, soltarem-nos e vê-los a saltar que nem uma mola.
Acontece que, infelizmente, como muita coisa na vida, tudo mudou com o passar do tempo. Os caracóis foram ganhando personalidade e ficando cada vez menos contidos: cada cabelo enovelava individualmente, por si, em direcções opostas e irregulares (nomeadamente na vertical!) e em poucos anos passei de Shirley Temple para a versão morena do Sideshow Bob. Fui tomada de assalto por esse inimigo de qualquer cabelo, que todas nós tememos: o frisado. A piada do “meteste os dedos na ficha?” rapidamente deixou de ter graça…
Decidi então tomar a situação em mãos – literalmente – e, armada de um potente secador numa mão e uma escova redonda com pêlo de porco na outra, comecei a domar a juba. Até suava, tal o esforço de contrariar os caracóis e transformar aqueles fusilli em tagliatelli. O primeiro auto-brushing demorou 2h e, em vez de ficar com o cabelo solto e fluído, fiquei com uma cabeleira hirta e tensa. Tentei resolver a situação ao apanhar o cabelo mas, claro, como sempre, o elástico, assustado, rebenta-me nas mãos que nem um homem-bomba num mercado iraquiano. Hoje, com treino, paciência e uma meia dezena de produtos especializados, passei a demorar uns razoáveis 40mins para deixar a melena solta e penteável. Mas não foi sem sacrifícios: tenho o bícepe direito estupidamente mais desenvolvido do que o esquerdo; sofri variadíssimas queimaduras, sobretudo na nuca quando o fio do colar incandesce com o calor do secador a temperaturas vulcânicas; fiz todos os tratamentos legalmente possíveis (relaxamentos, desfrizagens, escova brasileira… you name it); tentei 30 cortes diferentes que me tirassem volume…
E, como sempre, a Natureza tem uma forma muito curiosa de se vingar quando a queremos contrariar e numa espécie de amuo “Ai é? É assim que tratas a farta cabeleireira que Deus te deu? Então já vais ver”, caíram-me quantidades industriais de cabelo: não estou a falar daquele filamento solto que fica preso no anel quando passamos os dedos pelo cabelo, ou aqueles cabelos embrulhados no elástico ou na escova… São melenas inteiras, grossas madeixas que davam para muitas perucas e extensões. Ironia do destino: hoje faço tratamentos para ter MAIS cabelo e tive de deixar, por uns tempos pelo menos, o Babyliss de lado e aceitar a crina que Deus me deu. Confesso que acabei por me habituar outra vez aos meus caracóis e arrependo-me do excesso de tratamentos a que submeti o meu cabelo que, inevitavelmente, sofreu consequências irremediáveis. Não voltava a fazê-lo e hoje compreendo o cliché de não contrariar a nossa beleza natural que, por menos convencional que seja, está lá e muitas vezes só nós é que não a vemos.
Embrace your beauty. Curls rule!
Ahhh não tinha visto ainda este post, já vou um bocado tarde… Mas sou também uma rendida aos caracóis, andei 20 anos a contrariar a natureza mas há 2 anos que “vi a luz”.
Agora é: Leave in cream, difusor e sorriso nos lábios!