Por Teresa Ferreira Marques
Antes de me ter rendido à bíblia da beleza – ou seja, o TBR – confesso que não era muito aventureira no que toca a maquilhagem: uso os mesmos produtos das mesmas marcas desde sempre (batom vermelho Chanel, gloss Lâncome, pó Guerlain e tudo o resto Clinique) por isso normalmente já sei exactamente o que quero quando vou reabastecer os básicos das pinturas (já mesmo quando o rímel está a sair aos calhaus, o blush parece a terra árida do deserto e o batom já cheira mais a gordura de foca do que devia).
Na incrivelmente perfumada zona de “Beleza” do Corte Inglês, onde há excesso de estrogénio e dondocas de meia-idade a estoirar os cartões dourados dos maridos, tento despachar em 5 minutos o que tenho a comprar. Vou de passo determinado mas sou inevitavelmente interpelada pela empenhadíssima vendedora, com a sua imaculada bata branca (e porquê a bata nas vendedoras de maquilhagem? Vão operar-me? Fazer experiências de laboratório?) que, amorosa, me quer ajudar. Delicadamente declino, justifico que tenho pressa e sei exactamente do que preciso. Mas não, insiste ela, fique, fazemos um teste, a sua pele está seca/oleosa/mista/velha e outros tantos adjectivos que me deprimem e fico a achar que estou com uma pele pior do que a da Lili Caneças pré-peeling. A Menina Da Bata Branca senta-me de costas para o espelho e começa a pôr creme, bases, pós, anti-olheiras, anti-marcas, anti-isto, pró-aquilo… Já estamos nisto há vinte minutos e eu, stressada porque a minha hora de almoço já está esticada para além do razoável, acho que estou quase pronta mas estremeço a ouvir “Pronto, já temos então a base sobre a qual podemos trabalhar”. COMO DISSE?! Começa então a fazer os lábios e olhos: sombras, lápis, riscos… suspeito que a Menina Da Bata Branca esteja a fazer o jogo do galo na minha cara, aquilo está claramente a demorar tempo demais. Deixa finalmente que eu veja ao espelho (o que eu julgo ser) o resultado final e, efectivamente, parece que fui airbrushed, estou impecável e, com o seu charme e sorriso cintilante, a Menina da Bata Branca explica que isto são os 5 passos para maquilhagem de dia e agora vamos passar para a noite. Oi? Amiga, por este ritmo, saio já pronta para a noite de verdade! E essa história dos 5 passos é mito: até podem ser 5 mas depois cada um deles é dividido noutros 20 sub-passos! São 14:40, já suo por todos os lados, quero é sair dali. Sinto mais sombra, mais risco, mais rímel, mais batom… Finalmente a Menina Da Bata Branca acaba com um elogioso “Está fantástica!”. Eu acredito, agradeço apressadamente e mal tenho tempo de pagar os malditos produtos que fui comprar, mais os outros tantos que ela me impingiu. No metro sinto que todos olham para mim – não sei se porque estou efectivamente “fantástica” ou porque estou com ar de quem saiu a meio de um concurso de Misses ou do circo Chen. Quando chego finalmente ao escritório, enfio-me na casa-de-banho e, tal como temia, para além de ter a gola da camisa branca carregada de pó e base, pareço uma p*tinha mascarada de executiva. Sem desmaquilhante à mão, tento lavar a cara e é pior a emenda que o soneto: fico uma mistura de Lindsay Lohan com Courtney Love às 5h se fossem maquilhadas por um chimpanzé com Parkinson. Acresce que não há toalha para secar as mãos e, temendo ficar uma Sónia Brazão e fazer uma figura (ainda mais) ridícula, recuso-me a enfiar a minha cara borrada debaixo daquele potente secador de mãos que sopra ar a 100ºC. Com os vestígios de rímel e base a pingar para a camisa (em tempos) branca, limpo a cara a quadradinhos de papel higiénico que arranquei furiosamente e, derrotada, reconheço que isto é o melhor que consigo: pareço um soldado saído de uma violenta guerra na Sephora…
Passei o resto da tarde muito introspectiva, cabeça baixa, enfiada em documentos, a rezar que ninguém me veja nem que me chamem para reuniões.
Ainda não voltei aquele ponto de maquilhagem do UCI mas cheira-me que da próxima vez que tiver de comprar maquilhagem fá-lo-ei online… longe de qualquer Menina De Bata Branca.
Teresa Ferreira Marques é advogada de dia e blogger de noite. Aqui vai escrever de vez em quando sobre beleza, mas, tanto quanto sei, o seu sonho é ganhar a vida a escrever sobre música. Tem 29 anos e apesar de ser lisboeta de gema usa o pseudónimo de Maria Minhota no The Evil Twin.
Cartoon por Carolita Johnson
Excelente artigo!
isto sim vale a pena ler, queremos mais
LOL muito bom!
Eu também já saí de lá com uma camada de base que me dava para 3 meses e a menina (já não me lembro se tinha bata branca) disse que estava muito natural. O look ‘natural’ foi bastante notado no escritório depois…
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Ai o que eu me ri… ainda bem que não vou muitas vezes ao El Corte Ingles! Prefiro ir a Sephora porque fazem-me demonstrações da Benefit e claro que acabo por comprar mas fico muito satisfeita com a compra!
Gostei tanto desta rúbrica! <3
Ahahahahah que giro, adoreiiii!
Essas coisas ninguém me apanha!!
Adorei, ainda me estou a rir só de imaginar lol
Olá,
Gostei bastante. LOL A minha técnica é pedir ajuda à menina que usa a maquilhagem mais bonita, o que prova bom gosto. Ou simplesmente fazer tudo sozinha…
XOXO
Adorei o texto, simplesmente divinal!!!
Tens jeito para isto, continua o bom trabalho
Kisses,
Saltos de Cristak
Não quero ser mazinha… espero que a Teresa continue a ter situações destas! Ehehe Não muitas, mas uma de vez em quando, para nos poder escrever como estes :p Ri-me imenso e acho que a Teresa é um jeitinho especial para a escrita.
*Não querendo (era o que eu queria dizer, querendo=
Adorei!! Ri-me imenso ao longo do artigo, apesar de ser a coisa mais comum que se ve em qualquer loja de maquilhagem! Eu entro nas lojas Kiko, por ex, e apanho um valente susto quando vejo alguma empregada! Parecem reais bruxas saidas do Halloween, com aquelas misturas de cor fortes e mal pintadas ainda por cima! E depois dao nos a oportunidade de nos por igual! hum… nao obrigado, tenho o meu namorado/mae/cao a espera la fora!!
O artigo esta muito bem escrito, parabens!