The Beauty Routine

Sofrer para Bela Ser #4: Ir à Faca

Por Teresa Ferreira Marques

Longe vão os tempos em que a cirurgia plástica era tabu.

Outrora, os poucos que ousavam ir à faca jamais o admitiam: iam de férias durante quinze dias para um misterioso destino e voltavam, não bronzeados (“ah, errrr, apanhamos mau tempo….”) mas antes com implantes capilares, sem pés de galinha, lábios voluptuosos e copa DD. Milagre.

Mas a coisa tem vindo a ser cada vez mais aceite e tolerada.

O Brasil foi dos primeiros países a quebrar o preconceito e já há muito que se admite desavergonhadamente que as maminhas são novas ou que a bunda foi aspirada.

Em certas cidades dos EUA já é raro ver beleza natural: vai-se ao cirurgião como quem vai ao cabeleireiro. Cada vez mais acessíveis e socialmente aceites, as operações plásticas começam a fazer parte da rotina estética de muitos homens e mulheres.

Em Portugal, que não somos de ficar atrás das modas, a Maya fez dos implantes mamários todo um golpe publicitário que até lhe valeu a capa da FHM e umas célebres manas do Restelo receberam, cada uma, como presente de 18 anos, implantes mamários. Quando eu fiz dezoito anos os meus pais pagaram-me o exame de condução. Como o mundo mudou…

Não querendo ser reaccionária, confesso que ainda me faz bastante confusão o risco que se corre e o dinheiro que se gasta em operações plásticas. Se fosse barato, seguro e indolor, não prometo que não ia fazer um acerto aqui ou ali: todos nós temos espaço para melhorar. Mas, tirando casos excepcionais, extremos e vitais (vítimas de acidentes ou queimaduras, alpinistas que têm de pôr a testa no nariz, a Odete Santos…), na minha opinião, só se deve submeter a uma cirurgia, qualquer que ela seja, em último recurso.

E há outro ponto: é que com esta história de toda gente andar por aí a pôr maminhas, eu perco um dos meus principais trunfos. Então eu que tenho atributos naturais, com que Deus Nosso Senhor tão generosamente me abençoou em compensação por todas as minhas falhas, já nem sequer tenho essa vantagem em relação a estas pitas plastificadas? Não vale! Assim não brinco!

Com esta banalização social veio a máquina comercial: num abrir e fechar de olhos, passámos de tabu a galinha dos ovos de ouro quando as operações plásticas passaram da sala de operações para os estúdios de televisão e os reality shows de makeovers multiplicavam-se que nem coelhos.

A metamorfose de patinho feio em majestoso cisne é entretenimento do melhor: desde a Cinderela à Eliza Doolittle, é uma fórmula que continua a ser um sucesso porque toda gente gosta da história triste com final feliz, de ver o under dog virar campeão. E, no fundo, todos temos a esperança de que nós também, com uma ajudinha, podemos transformar-nos na melhor versão de nós próprios.

Os pioneiros Extreme Makeover  e The Swan eram tão maus, mas tão maus que chegavam a ser bons. Mulheres inimaginavelmente feias (com todos os clichés a que se tem direito: narizes de bruxa, miopia profunda, dentaduras podres a furarem a boca quase na horizontal, mais borbulhas do que um adolescente a trabalhar na fritadeira do McDonalds, cabelo à Don King… vale tudo) vão a um super cirurgião que as transforma numa espécie de Frankenstein dos tempos modernos: transfiguram-se em clones inexpressivos e idênticos, todas com o mesmo nariz à Zsa Zsa Gabor, dentes postiços, tez imaculada, extensões de fazer inveja à Rapunzel, sem esquecer, claro, uma cintura de vespa, rabiosque J-Lo e maminhas Dolly Parton. Se o Aldous Huxley fosse vivo, pediria direitos de autor.

Moral? Ética? Beleza interior? Huh? O que é isso? Nããã, vamos ser superficiais até ao fim! Já gozava o Daniel Tosh: “I don’t want to develop a personality, just cut up my face. Do I look happy? That’s the expression I ordered: happy”. Ele depois desenvolve uma teoria de que as operações no Extreme Makeover não são assim tão extreme e dá como exemplo de uma operação que seria digna desse título o implante de uma vagina no sovaco.

Entretanto a coisa acalmou ligeiramente e, fazendo jus ao puritanismo e moralismo americano, este tipo de programas começou a focar-se mais em “trabalhar com o que Deus nos deu”: deixa-se de lado o bisturi e investe-se na componente psicológica. É o caso do ultra-estereotipado Queer Eye for a Straight Guy aos actuais What Not To Wear, Biggest Loser e o intolerável Plain Jane (desafio-vos a encontrarem alguém mais insuportável do que a Louise Roe).

Infelizmente não têm o mesmo shock value que o Extreme Makeover ou o The Swan mas, com ou sem operações plásticas, estes programas acabam por ser todos iguais. Muda o cenário, o apresentador, o canal, tira-se o gordo e põe-se a feia mas, de resto, desencadeiam-se todos da mesma maneira. Ora vejam.

Primeiro Passo: A Apresentação.

Aqui conhece-se o participante: pode ser via filmagens secretas ou testemunhos submetidos pelo próprio. Sublinham-se os traumas de ter sido troçado por ter o nariz grande, as dificuldades em brincar com os filhos porque são gordos, o desgosto de não conseguir conquistar a amada porque vestem camisolas à Bill Cosby… Sempre com muitas lágrimas porque isto, caros telespectadores, é a vida real.

Segundo Passo: A Anunciação.

Anuncia-se ao sortudo vencedor que ele é… isso mesmo, o sortudo vencedor. Seguem-se mais lágrimas, muitas lágrimas, abraços, gritos de alegria que nem a Anunciação de São Gabriel terá provocado tanta surpresa.

Terceiro Passo: Os Experts.

É a parte científica da coisa, com gráficos, dados, análises, vídeos e apresentações powerpoint de personal trainers, cirurgiões plásticos, fashion advisors, psicólogos, life coachs…. Sim, porque isto, caros telespectadores, não é um simples programa de televisão para gerar milhões de dólares aos apresentadores, produtores, cadeias televisivas e anunciantes! Não! Estão em causa vidas reais! São assuntos sérios e estes apresentadores, produtores, cadeias televisivas e anunciantes são os mais altruístas dos altruístas, dignos de prémio Nobel da Paz!

O nome da clínica do cirurgião está sempre no canto superior da imagem? Mero acaso. O zoom à marca da roupa? Não, é só para mostrar que dá para lavar na máquina. A menção a uma empresa de refeições light? Uma casualidade, claro, podia ter sido outra marca qualquer… Os milhões que todos estes acasos geram aos apresentadores, produtores, cadeias televisivas e anunciantes? Efeitos secundários e despropositados, claro…

Quarto Passo: A Intervenção.

Tal como a Eliza Doolittle teve de ser adestrada pelo Professor Henry Higgins, também estes concorrentes têm passar pelo o seu “The rain in Spain falls mainly in the plain”, quer seja o treino no ginásio, a cirurgia estética ou a maratona das compras.

Quinto Passo: A Recuperação.

Esta é a fase tear-jerker, imprescindivelmente acompanhada de uma montanha russa de emoções, normalmente associadas ao fim de um passado traumático e às saudades da família (vídeos e telefonemas de familiares e amigos com declarações de amor e orgulho são impreteríveis).

Sexto Passo: A Revelação.

Dão-se os toques finais, levanta-se a cortina e, perante uma plateia de dimensões olímpicas com familiares e amigos, seguem-se mais lágrimas, gritos, espasmos e abraços. É o êxtase absoluto, muitos agradecimentos emocionados aos apresentadores, produtores, cadeias televisivas e anunciantes que, sem querer, claro!, ainda ganham mais uns trocos…

Oitavo E Último Passo: A Entrevista Final.

Já tudo recomposto (e devidamente remaquilhado) depois da revelação, registam-se os testemunhos de familiares, amigos e do próprio transformado, com uma inesgotável sequência de imagens de antes (a preto e branco, para que não haja dúvidas) e depois. Mais lágrimas, sempre mais lágrimas, e a mensagem de esperança para todos os telespectadores gordos/feios/pirosos que querem também ser salvos por este milagre, generosamente oferecido pelos apresentadores, produtores, cadeias televisivas e anunciantes que, mais uma vez, almas caridosas, ainda arrecadam mais uns trocos.

É formato é comprovadamente um sucesso, mas já está tão batido que é preciso dar-lhe a volta e, sem pretender ser uma guru da televisão, aqui entro eu, que tenho aqui uma ou outra ideia que, cheira-me seriam um êxito.

Extreme Makeover – Beleza Interior. Que tal? Mas não se trata de balelas sobre bondade, integridade ou humildade. Não, isso é uma seca. É beleza interior no sentido literal: órgãos. Já vos sinto a aderir em massa! Há de certeza por aí muita malta suficientemente perturbada, com complexos tão profundos que vale a pena explorar! Uma anoréctica a querer emagrecer o intestino grosso ou um romântico a querer dar ao coração um formato de coração. Eu, por exemplo, fui fazer uma ecografia no outro dia e pareceu-me ter os rins assimétricos.

Ou então que tal um programa que faça o follow up das transformações que já foram feitas nesse rol de reality shows? Ia dizer um ano mas nem será preciso tanto: 3 meses depois da sensacional revelação, como estarão os concorrentes? Eu aposto em gordos com raízes escuras, extensões descaídas, botox a desinchar, bronze derretido às manchas, complicações pós-operatórios… One can only hope!

 



Teresa Ferreira Marques é advogada de dia e blogger de noite. Aqui vai escrever de vez em quando sobre beleza, mas, tanto quanto sei, o seu sonho é ganhar a vida a escrever sobre música. Tem 29 anos e apesar de ser lisboeta de gema usa o pseudónimo de Maria Minhota no
 The Evil Twin.

 

 

 

 

 

 Fotos: Vogue

 

2 Comments

  1. soblushed
    December 2, 2011

    exacto, prémios Nobel da Paz pa essa gente toda!! clap clap clap
    é uma porra!nós, Homens, somos uns mero animais: vivemos neste mundo para procriar. Obviamente que a beleza pode condicionar a cena! lol
    conheço todas as series que mencionaste. alem da vontade de uma makeover, parece que de repente nada está perdido: qq defeito físico pode desaparecer, aliás e tornar-se um grande vantagem!
    enfim, somos uns eternos insatisfeitos…
    Ah, e n me venham c coisas mas sou da opinião que Deus nos devia ter contruído mais semelhantes em termos de gordice, ou entao que n inventasse isso das células gordas. disgusting!

  2. amberhella
    December 4, 2011

    adorava ver esse programa do “um ano depois…….” lembro-me de ver tanto o the Swan como o Extreme Makeover….god…havia ppl que mudava radicalmente…plastic is fantastic………..

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